24 abril, 2011

Ave

Eles que te torçam o pescoço,
Que te amarrem a cadeiras sem pernas,
Que te tirem o sono,
Que te prendam os braços e as pernas.
Eles que te tapem a boca e os olhos,
Que te coíbam verdades e certezas.
Eles que façam tudo! Que te roubem a alma
E ta arranquem do corpo.
Eles que te matem se for preciso,
Mas que nunca te tirem a liberdade.
Só somos humanos se nos virmos como aves,
Livres!
Sejamos tristes ou felizes, quaisquer outras definições trocadas,
Apenas seremos humanos se formos livres.

Eles não sabem disso...










16 abril, 2011

Dias-conta

Vendi a modéstia à tua deficiência emocional, ridícula e quase matemática. Não me vejo ao espelho e se volto a sonhar contigo dou em maluco. Parvo amor, roubaste-me o tempo, o sentimento e a ciência de mim mesmo. Não sou ciente de mim há precisamente 56 dias e algumas horas. Sabes, por acaso, o preço disso? Um recomeçar do zero; pegar no inimaginável e torná-lo agradável, mesmo que não seja nada de nada; atirar-me aos leões dentro de um circo fechado em círculo de mim mesmo e carregar-me com as mordidelas dos animais ferozes e calar-me com as feridas; ausentar o meu nome em plateias às gargalhadas com o espectáculo “A Vida” e fazer depender a minha presença num pequeno sonho, inútil e gasto, velho e estúpido, apagado e esquecido. És desprezível agora, meu amor. Tivesse eu palavras para te descrever o amor que sinto por ti: tão baixo e de má fé. Tivesse eu as palavras que me roubaste: oferecia-as a um mendigo qualquer, o mais nojento e fedorento dos mendigos. Não te quero para nada. Não te quero na minha recordação ridícula e pateta. Não te quero nos meus sonhos que já não posso sonhar mais contigo. Não te quero de maneira nenhuma.

E a saudade das tuas palavras mata-me a cada dia neste frio de verão irónico. Não havia verão sem ti há alguns anos; não havia noite sem ti há alguns anos.

Não havia eu sem ti, há 56 dias.

10 abril, 2011

Maneiras

"Maneiras, do real ao imaginário.
Visiono a lucidez num trono,
Lições sem sumário.
Montagem da aprendizagem de saberes prioritários
Entre quatro paredes, momentos estacionários,
Entre ideologias sem logística, o que fica
É uma pica que apenas bate num estado da vida.
Quando restrito é o prazer escrito
Não evito-o, ensino o que a alma traz num monólogo nunca dito.
Confio no meu contrato, íntimo, pacato.
Expressionismo, pinceladas num nome tão abstracto.
E o facto é o tacto de seis sentidos, onde os ouvidos tocam num bocado
Essencial ao total que necessito,
E só vale o que eu recito,
E só entra o que eu permito.
Maneiras, numa casa de partida ao regresso
Onde o interesse é vasculhar um terço.
Fazer arrumações de dois tempos: passado e presente.
Contributo na veia na escuta da plateia.
Conto como está pronta a minha justificação
Explico na noite morna que entorna a minha intuição.
Eu não percebo nada, já não sou compreensivo
Só quero a motivação e fechar o dia num livro.
Repetições fazem voltas na vida tão estreita
Envio-te neste correio uma emergência de respeito.
Auto-didacta sem data
A fim de partilhar uma dose de vinte anos
A voz em controlo estar.
E não se ocupa com disputa,
Só caibo numa folha,
Numa maneira sem léxico que resume a tua escolha."


maneiras

estive tão perto de te dar
de te ter.
eu não percebo nada,
já não sou compreesivo,
conto com um abraço do tempo
para fechar a nossa história num livro.

04 abril, 2011

Veneno

Acendo um cigarro... Mas eu que nem fumo... Vale a pena espalhar doses de nicotina intensa neste corpo livre da tua presença? Pois... Então apago-o...

Tenho tentado procurar respostas para certos casos... hoje sou como um Grisson e tenho uma equipa toda de recolha de informação que não é mais que um simples pensar moribundo, usado e já velho. Deixa-me que te diga umas coisas - e agora sentar-me-ia no lado inverso de uma cadeira, ar de detective: o coração humano não funciona como sonda, procurando pelos ruídos electroamorosos presentes na nossa atmosfera terrestre, fazendo-nos escolher entre este e aquele mortal. Merecemos bem mais que um corpo vendido, parado na lota de romances e prazer, parado e encostado com um preço já definido:

"Precisa de ser alta(o), bem composta(o) e boa pessoa - de preferência que goste já de mim e que goste de boa música também."


Ridículo... Temos escolhas caramba, não nos podemos deixar levar pela estúpida crença quase diplomática oriunda de contos ridículos que nos ensina que a "vida são dois dias", "é o destino", "aconteceu", e todas essas bugigangas. Temos escolhas, trilhos definidos por nós, não é esse Deus que nos comanda lá da janela dele, provavelmente sentado no sofá, comendo pipocas e bebendo Coca-Cola... Tenho andado para te escrever isto há algum tempo, sob influência do teu desprezar-me diariamente, o acordar sem a tua presença omnipotente, impedido pelo emprego diário matinal que me vai enchendo o pensamento, pelo estudo antecipado, defendendo um sonho velho e palpável.

O coração humano não tem sonda, amor,
e por isso não amo ninguém...